Second Come: a segunda vinda

25 de abril de 2015

Por Marcos Araújo

Fotos: Bruno Guida

 

O Second Come durou pouco.  Muito pouco.  Mas durante o período em que existiu, foi avassalador.  Lançaram algumas demo-tapes e dois discos (os ótimos “You” (1991) e “Superkids, Superdrugs, Supergod and strangers” (1994), pelo selo Rock it! do legendário Dado Villa Lobos e André X (Plebe Rude), mas o embrião da banda começou no final de 1985 quando o fã do Echo and the Bunnymen Fernando Newlands foi levado pelo amigo Luis Henrique Romanholi para conhecer dois carinhas interessados em montar uma banda.  Os dois eram Tuta e Fábio Leopoldino.  Ainda sem baixista fixo, Romanholi participou de alguns ensaios até que, vindo por um anúncio de um jornal, Francisco Kraus se tornou o homem das quatro cordas.  Estava formado então o Eterno Grito, que chegou a fazer um certo burburinho no cenário underground, através de José Roberto Marh, que fazia o “Novas Tendências” na Fluminense FM.

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Gravar um disco naquela época era uma tarefa complicadíssima, mas mesmo assim o Eterno Grito meteu as caras e lançou em 1988, um EP pela Toc Discos, produzido pelo tecladista do Barão Vermelho Maurício Barros com seis músicas, entre elas o anti-hit “Archote”.  Ainda em 1988, Tuta deixa a banda e Dalton Viana o substitui.  Em 1989, buscando mais peso nas guitarras, conhecem o jovem Fernando Kamache, que chegou a ensaiar algumas vezes, antes da banda terminar.

 

Foi ainda em 1989 que Fábio, Kraus, Kamache e Dalton montaram então, o Second Come e gravaram a demo “Violent Kiss” com quatro músicas: The Shower, Wicked Sky, My world e Deafening sounds on my mind.  Na época, era moda cantar em inglês no Brasil.  Paralelamente, explodia o grunge, em Seattle com o Mudhoney, Soundgarden, Alice in Chains, Mother Love Bone e uma outra que estava lançando seu primeiro disco “Bleach” e que poucos anos depois faria um estrondoso sucesso em todo o mundo: Nirvana.

 

Muita gente ainda diz que o Second Come foi influenciado por Pixies e Nirvana, mas em uma época em que não havia internet (portanto torrents, Google, YouTube, facebook e Rapidshare eram coisas que ninguém no planeta ainda conhecia) e encomendar um cd importado poderia levar meses para chegar,  a impressão que temos é que tudo aconteceu como uma grande sincronia.  Aqui, ninguém conhecia o Nirvana ou o Pixies… Como um big bang musical, cada coisa começou a ser criada no lugar certo, na hora certa, a partir de uma explosão que ninguém soube ao certo onde começou.

 

O primeiro show do Second Come rolou no DCE da UFF, em Niterói. Neste mesmo dia tocaram o eletrônico-cabaret do Saara Saara e o Squonks, banda em que a Simone do Vale (Dash) tocava. Quando o Second Come entrou em ação, já causou um alvoroço e todo mundo saiu dali com os ouvidos zunindo.

Quase um ano depois, o Second Come lançou outra demo “Wade´s bed”, que já tinha os hits “Run Run” e “Ten Fingers”.

Em 1990, através de uma votação pelos críticos da antiga revista Bizz, o Second Come foi escolhidos como banda revelação.  Nessa mesma época, era aberto o Garage, na Praça da Bandeira, reduto de dez entre dez bandas alternativas do RJ, palco de inúmeros shows do Second Come e de uma penca de outras bandas e seus diversos estilos como Pelvs, Poindexter, Beach Lizards, Soutien Xiita, Gangrena Gasosa, Sex Noise, Divisão X, Cabeça, Terrible Head Cream, Planet Hemp e Cigarettes.

Já com Kadu nas baquetas, a demo “I Ain´t” foi lançada, com “Perfidiousness”, um petardo sonoro.  As fitinhas cassete do Second Come eram as que mais vendiam na Rock it! (que antes de virar selo, era uma lojinha de CDs que funcionava no Leblon e ponto de encontro da galerinha alternativa).  E por causa desse sucesso, a banda foi a primeira banda a assinar um contrato com o selo.  “You”, o álbum de estréia foi gravado com em um tempo recorde de 72 horas com sobras de rolos de fita da EMI.  A capa não era para ter sido aquela, mas, por causa da grana curta, Fábio fez uns rabiscos e lá foi assim mesmo, inacabado para a fábrica, mas que acabou se tornando uma unanimidade no mundo alternativo e influência para tantas outras bandas que surgiram depois.

O gênio Nelson Rodrigues já dizia que a unanimidade era burra, mas essa máxima nunca se aplicou ao Second Come.  Eles reuniam sempre uma pequena multidão em seus shows, congregando várias tribos.

Mesmo com uma legião de fãs e os rasgados elogios da mídia e até de Dave Grohl, o desgaste começou a aparecer, pois arrumar um lugar bacana para tocar era complicado e a grana não entrava.  O Second Come ainda foi sacaneado por uma banda americana produzida por Jack Endino (que também o Nirvana), que simplesmente plagiou na careta de pau a fantástica versão que tinham feito para Justify my Love, de Madonna.

Aos trancos e barrancos e com muita dificuldade, ainda tiveram fôlego para gravar o segundo disco, o ótimo “Superkids…”, com uma produção mais cuidadosa.  Neste lançamento, Kadu já tinha saído para montar o Dash com a Simone do Vale, Diba e Formigão (Planet Hemp), e Reyson já assumia as baquetas.

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No fim de 1994, simplesmente, a banda acabou, deixando uma galera órfã e decepcionada, pois os shows do Second Come eram uma espécie de válvula de escape com muita liberação de adrenalina.

Apesar de Fábio continuar tocando em outras bandas como o Stellar e o Polystyrene e o Kraus dar expediente no Jess Saes e no Terrible Head Cream, muitos fãs ainda esperavam vê-los novamente juntos, com o Second Come, em uma reunião que nunca aconteceu.  Com Kadu morando em outro Estado e Kamache fora do Brasil, o sonho parecia ainda mais distante.

Em maio de 2009, com a precoce morte de Fábio, Rodrigo Lariú, big boss do selo Midsummer Madness já começou a negociar com uma infinidade de bandas a idéia de realizar um tributo.  Três anos depois, a bolachinha finalmente saiu do forno.  E o mais legal: com a cara dos pais e com versões matadoras de bandas como Loomer, Tambourines, Snooze, Dash, Soft & Mirabels, Pelvs, Beally, Cigarettes, Lê Almeida, Oort Clouds, Johann Heyss, entre outros.

A agitação deu um certo ânimo.  Algumas vezes, quando Fernando Kamache estava de férias no Brasil, os amigos se juntavam e uma sonzeira com uma sinfonia de guitarras (com participação de Dado Villa Lobos e dos fantásticos Maurício “Mauk” e Renato Fernandes) e Yuri revezando as baquetas com Bacalhau (Autoramas) e o próprio Kadu.

Mas, os antigos (e novos) fãs tem uma nova chance de comemorar e apreciar mais uma vez o noise que os caras detonavam em cima de um palco.  Com a volta de Kadu e Kamache para o Rio de Janeiro, finalmente o Second Come, que também está com o reforço de Maurício “Mauk” vai literalmente dar uma segunda chance: no dia 22 de abril rolou um discreto (porém superanimado) show de retorno oficial no Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói, mesma cidade onde aconteceu a primeira apresentação do grupo.  Mesmo em um dia chuvoso, o público (mesmo pequeno) não desanimou.  Foi lindo ver a galera pogando na frente do palco.

Sem querer ser nostálgico, é sempre sensacional ouvir novamente canções como “I feel like I don´t know what I´m doing” (que abre o show), “Tem fingers”, “Shoes” e “Perfidiousness”.  O repertório é ainda 90% calcado no primeiro disco.  De “Superkids…” estão “She could melt the sun” e “Wait”; mas certamente nos próximos devem rolar pérolas como “Airhead”, “My cancer”, “High high” e “Little friend”.

E a novidade mais bacana é que definitivamente a sessão nostálgica ficou no passado.  Os caras estão animadaços em criar novas composições e até gravar um disco novo.  Segundo Francisco Kraus, “o importante é o divertimento que esta volta está proporcionando”.  E se depender dos fãs e da galera que esses caras influenciaram, o divertimento não vai ter mais hora para acabar.

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