Poltergeist – Não olhe para a luz!

6 de junho de 2015
Quem era um adolescente na década de 1980 certamente deve se lembrar muito bem dos arrepios que o filme “Poltergeist” provocou. Com toda a evolução dos efeitos especiais no cinema, a película, vista hoje, pode até parecer ingênua, mas ainda produz bons sustos.
 
Quando no ano passado Sam Raimi (que dirigiu a trilogia Homem Aranha, as duas sequências de Evil Dead e o sinistro Arraste-me para o inferno) decidiu colocar a mão na massa para produzir o remake de Poltergeist – que estava em desenvolvimento desde 2006 – muitos pensaram: vem coisa boa por aí! Afinal, não poderia estar em melhores mãos na reedição deste clássico do terror.
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Para quem não se lembra, o Poltergeist original foi dirigido por Tobe Hooper e produzido por Steven Spielberg (que também estava dirigindo outro clássico do cinema – “ET, o extraterrestre”). Os dois filmes foram lançados ao mesmo tempo e, talvez por isso, a comoção mundial de ET tenha ofuscado um pouco o sucesso de Poltergeist. Reza a lenda que insatisfeito com algumas sequências, Spielberg interviu e fez o trabalho de Hooper. Se é verdade ou não, é nítida a presença da direção de Spielberg em diversos momentos, como os planos sequência aéreos e a clássica cena da piscina, no final que – dizem – foi filmada com esqueletos reais.
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Poltergeist também trouxe uma aura de mistério fora das telonas. A jovem atriz Dominique Dunne, que fazia a irmã mais velha da família Freeling, foi morta estrangulada pelo ex-namorado, logo após o lançamento do filme, em 1982. Para abafar os gritos, o assassino colocou em volume máximo a trilha de… Poltergeist! Já o menino Oliver Robbins, durante a cena em que é estrangulado pelo palhaço de brinquedo, quase foi sufocado de verdade na gravação. O veterano Julian Beck, que interpretou o Reverendo que infernizava a todos na sequência, também morreu, aos 60 anos. Outro ator, Will Sampson, que na mesma sequência defendia a família, também se foi em circunstâncias estranhas. Zelda Rubinstein, a famosa anãzinha paranormal Tangina, morreu em 2010. Mas a morte mais sinistra foi da atriz-mirim Heather O´Rourke, seis anos depois do lançamento do filme. O´Rourke fez o papel principal nos três filmes da série – a menininha Carol Anne. A atriz tinha somente 12 anos quando morreu devido a uma complicação intestinal agravada por um erro médico.
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Heather O´Rourke, na primeira versão de Poltergeist, em 1982
Estranhamente, este novo Poltergeist, que tinha tudo para ser bem mais assustador exatamente por causa da tecnologia atual, é insosso. A trilha sonora de Marc Streitenfeld nem de longe supera a do sensacional Jerry Goldsmith, que provocava calafrios. O novo filme até inicia bem com a inserção de equipamentos modernos no roteiro como celulares, televisores de última geração, tablets, aparelhos de academia e até um drone, utilizados pelos personagens, mas quando os primeiros fenômenos começam a aparecer na casa, a impressão é que o diretor Gil Kenan, quis colocar “tudo ao mesmo tempo agora” e enfraqueceu grande parte de sequencias antológicas do primeiro filme, como a chegada da tempestade que culmina com a centenária árvore “engolindo” o menino enquanto a irmãzinha mais nova era sugada pelas forças do mal para dentro do armário. A história é a mesma, mas não existe o timing e a dramaticidade necessária para o desenvolvimento do clímax assustador para o espectador.
 
Outras sequencias excluídas, que renderiam um incrível frisson nas salas de cinema foram a parte em que os fenômenos paranormais retornam com força total e os demônios bloqueiam a passagem da matriarca ao quarto das crianças, além da clássica cena da piscina, com as centenas de esqueletos boiando.
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Uma das várias cenas arrepiantes do filme original que nem dá as caras na nova versão…
Mesmo que seja notório que o maior desafio do produtor e diretor tenha sido realizar um filme que fosse diferente do original, adaptando a linguagem aos tempos modernos, o novo Poltergeist peca por decepcionar os fãs antigos, literalmente amputando com o que ele tinha de melhor, que eram o bom humor, a crítica social oitentista, as luzes e som e as excelentes (e convincentes) atuações do elenco, principalmente da atriz mirim Heather O´Rourke e sua doce, ingênua e inesquecível Carol Anne.
 
O filme, encarado como passatempo, até pode agradar os neófitos, mas para o público mais exigente, desta vez, a luz tão intensa e assustadora do filme original, se apagou definitivamente.
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