O Homem Elefante

8 de fevereiro de 2015

O que é ser considerado “normal”?

Estar dentro das regras impostas pela sociedade?  Ter um corpo perfeito, ampliado em suas proporções e dimensões, “dentes-brancos, hálito puro” em uma vida heterossexual-monogâmica?

Estes e mais tantos outros questionamentos reverberavam na minha cabeça depois que, estupefato, saí do teatro após o excelente espetáculo “O Homem Elefante”, baseado na história real de Joseph Merrick, encenado tantas vezes na Broadway e que virou até um filme, dirigido por David Lynch em 1980, sobre um jovem que viveu na Londres da segunda metade do século XIX e sofria de um distúrbio que fisicamente o deixava assustador.

Merrick, que acreditavam ter Síndrome de Proteus, era explorado e constantemente espancado em um circo de horrores.  Os olhares de reprovação e repulsa eram rotina na vida deste homem até ser descoberto por um médico que, ao invés de aceitá-lo, deu continuidade à bizarrice, tentando de todas as formas moldá-lo no que considerava “normal”, já que “as regras nos fazem felizes porque são para o nosso próprio bem”.

Assistindo ao espetáculo, onde todos os atores estão de parabéns pelas suas excelentes atuações – Davi, Daniel, Regina e Vandré – não há como não lembrar do sinistro, polêmico e inquietante “Freaks”, dirigido em 1932 por Tod Browning, que retratava personagens em um freakshow, contando em cena com atores apresentando deformidades reais.  No filme, considerado até hoje como um dos mais assustadores de todos os tempos, os verdadeiros monstros são as pessoas mais belas e não os explorados no circo.

Além dos personagens de “Freaks”, podemos também fazer uma série de associações em “O Homem Elefante”: a degradação do ser humano tão bem delineada por Franz Kafka; a inesquecível montagem que comoveu o público de “O livro de Jó”, encenada anos atrás com a brilhante atuação e o sofrimento de Matheus Nachtergaele e até a estarrecedora capa da revista Veja com a figura cadavérica de Cazuza, antecipando sua morte em quatorze meses  através da manchete “vítima da AIDS agoniza em praça pública”.

Aqui, o excepcional Vandré Silveira mistura tudo isso.  Estão lá, além da figura de Merrick, um Joseph K. metamorfoseado, o anão Hans, Jó ensanguentado em um pau-de-arara, Cazuza e Thom Yorke esbravejando os dilacerantes versos da canção do Radiohead: “but I´m a creep… I´m a weirdo… what the hell am I doing here? I don´t belong here…” que  fazem parte da belíssima e visceral cena final, com uma dramaticidade-plasticidade-redenção pouquíssimas vezes contempladas em um palco.  Uma conclusão que metaforicamente é o recomeço de tudo; do verdadeiro homem-Deus sendo autoconstruído através do barro.

Mesmo se passando em uma era vitoriana, a história de “O Homem Elefante” continua contemporânea.  Afinal, continuamos vivendo em uma sociedade estereotipada e hipócrita, de pessoas que vivem da aparência e não de sua própria existência, mergulhadas em um imenso circo de horrores, e que utiliza de um sentimento de falsa dádiva e perdão para tentar exorcizar os seus mais intrínsecos medos e desejos.

Bravo, bravíssimo.

Crédito: Rodrigo Castro Crédito: Rodrigo Castro


 

 

 



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