Ecos do passado

3 de novembro de 2014 às 00:00

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O canto gregoriano, mais uma vez vai tocar…

Antes de começar, precisei dividir o texto em duas partes… um ANTES e outro DEPOIS do show no Rio de Janeiro. Esta primeira parte já estava pronta, com o título “o canto gregoriano mais uma vez vai tocar”.  Para quem é um fã verdadeiro da banda, entenderia perfeitamente.

Esta introdução é, na verdade, uma grande expectativa para quem aguardava há mais de oito anos uma nova apresentação no Rio de Janeiro, que havia sido palco do memorável show de 1987 e da gravação do clip de “The Game”, que misturava o bondinho dos Arcos da Lapa, o Cristo Redentor, as palmeiras de Copacabana e o gesto de “me dei bem” do Didi Mocó.

Portanto, não considere como um texto jornalístico ou resenha. Não dá para deixar de incluir adjetivos nem parar de utilizar a 1ª pessoa em todos os parágrafos. Falar do Echo and the Bunnymen sempre me causa uma emoção muito grande. E para que vocês compreendam, muitas vezes precisarei voltar ao passado, com o coração pulsando forte… Sempre.

O ano de 1987 pode parecer muito distante. Mas quando olho para trás, tenho a impressão que só pisquei para que meus olhos e ouvidos descansassem um pouco e acordei, vinte e sete anos depois.

Naquele passado tão recente eu era um clone do Robert Smith: cabelo desgrenhado, roupas pretas num calor de 40 graus e a poesia de Augusto dos Anjos recitada em cemitérios. Até que ouvi o Echo and the Bunnymen pela primeira vez, na Fluminense  FM. Mas foi por causa de uma matéria na extinta revista Bizz que decidi ir a um dos dois shows que eles fizeram no Canecão.  Até hoje lembro do título: “parem as rotativas!  Echo and the Bunnymen no Brasil”.  Fui no primeiro dia e saí de lá hipnotizado com aquela aula de rock, que misturava o som dos conterrâneos Beatles, a poesia épica do Doors e o lado selvagem, sujo e alternativo dos becos nova-iorquinos vomitados pelo Velvet Underground. Eles podiam ser John, Paul, George & Ringo. Podiam ser Morrison, Manzarek, Krieger & Densmore. Também poderiam terem sido chamados Lou Reed, Sterling Morrison, John Cale e Maureen Tucker… Mas, misturando tudo, se tornaram únicos e originais, sendo Ian McCulloch, Will Sargeant, Les Pattinson e Pete de Freitas, os homens-coelho.

Dez entre dez críticos musicais sempre citam a apresentação do Canecão como “O” show. Realmente só quem esteve lá sabe. Não adianta descrever o indescritível. Emoção à flor da pele que arrebatou fãs e a própria banda, que até hoje cita aqueles momentos como as melhores apresentações que já fizeram em toda carreira. Talvez nunca ninguém possa explicar o que houve naquele momento. Mas certamente, uma aura mágica, um turbilhão de sons neopsicodélicos ou uma espécie de comunhão atingiu aqueles coraçõezinhos. Um deles, foi o meu.

O fato é que, as canções dos Bunnymen sempre estiveram presentes na minha vida. Se eu pudesse transformar toda minha vivência em um grande filme, em todos os momentos, alegres ou tristes, as letras e canções de Ian e cia. estariam lá, por trás de cada cena. Tenho sempre a sensação de que, para cada fã, a sensação se repete, pois a história deles é sempre muito parecida com a nossa. E o que é a vida senão uma série de momentos bons e ruins, alternando com nossos medos, obstáculos a enfrentar, paz, solidão, risos, lágrimas, ansiedade, saudade, angústia e felicidade?

Com a morte prematura do superbaterista Pete de Freitas, em um acidente de moto, o Echo acabou. Lembro que quando soube da morte de Pete, fiquei chorando uma tarde inteira ao lado de minha mãe, que adorava ouvir todas as tardes de sábado o “Songs to learn and sing”, principalmente “The Cutter”. Até hoje lembro daquela rotina… colocava o disco para rodar e ficávamos em silêncio deitados na cama, balançando os pés… a janela aberta e nós dois olhando o céu se transformar em cores do entardecer, até ficar bem parecida com a tonalidade da capa. “Bring on the dancing horses” fechava o disco e a gente se olhava e ria. Não sei o que se passava na cabeça dela. Ela nunca me disse… mas na minha, era uma sensação de paz.

Anos depois, ela se foi para sempre. Deitada na mesma cama.

Ian quase se foi também. Bebendo demais, fumando demais… saiu da banda em carreira solo… lançou o (ótimo) “Candleland” e outros álbuns irregulares. O Echo continuou com outro vocalista (Noel Burke), lançou “Reverberation” e foi um fracasso de vendas. Will e Ian montaram o Elektrafixion (que era beeem bacana) e logo acabou e retornaram mais de dez anos depois com o ótimo (mas subestimado) “Evergreen“. Com sérios problemas de voz, os discos não tinham o brilhantismo de um “Heaven Up Here”, um “Porcupine” ou um “Ocean Rain”, mas certamente eram muito melhores do que muita banda que a cada semana era taxada como a salvação do rock nacional.

Tai o problema. Se o Echo fosse uma banda mediana, não haveria tanta cobrança. Mas os caras eram fantásticos. Os quatro juntos eram insuperáveis como os conterrâneos Beatles. Se Paul e Ringo resolvessem remontar os Beatles, seria genial. Mas não seriam os mesmos, pois faltaria o brilhantismo de John e George.

Mas o Echo continuou. Com metade da magia, é verdade… mas mesmo assim, com qualidade e técnica anos-luz à frente de muita coisa que ouvimos por aí. Para se ter uma ideia, o último lançamento, “Meteorites”, possui canções como “Holy Moses” e “Lovers on the run” que poderiam figurar, tranquilamente em uma nova coletânea de clássicos Songs to learn & sing parte 2, ao lado das canções anos 90 “Stormy Weather”, “All because of you days”, ‘Scissors in the Sand”, ‘In the margins”, “I want to be there (when you come)”, “Think I need it too”, “Do you know who I am”, “Don´t let it get you down”, “Nothing lasts forever”, “Supermellowman”, “It´s alright” e as do grey album “The Game”, “Lips like sugar”, “Bedbugs and ballyhoo”, ou seja, canções que vieram com o suposto “declínio” depois de Ocean Rain.

A cada nova visita da banda ao Brasil fica sempre a mesma expectativa de que a mágica do show de 1987 se repita. Isso já até virou lenda. No fundo, todos sabem que não existe essa possibilidade. Na época, Ian tinha somente 28 anos e estava em seu auge de potência de voz, que foi estilhaçada pelo cigarro e álcool. Mas mesmo assim, o que fica é sempre aquela energia do reencontro de velhos amigos de adolescência, que, mesmo após anos sem se ver, sempre termina em festa. Todos se divertem, contam histórias do passado, relembram de casos emocionantes, dão aquele apertado abraço de despedida, choram, se abraçam de novo, fazem promessas de que sempre vão manter contato, tomam o rumo e a vida continua… até que um novo reencontro se estabeleça… novamente e novamente… essa é a história do Echo com seus fãs brasileiros.

 

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O canto gregoriano desapareceu…

Falta de soundcheck, péssimo som da casa de shows e desânimo de público e integrantes se transformam em um show desastroso.
Fundição Progresso (RJ) – 01/11/2014

Em 2008, durante um temporal que caiu durante o show do Interpol, na Fundição Progresso, uma cachoeira se abriu em cima da mesa de som e na cabeça dos integrantes da banda, as luzes do palco se apagaram e a banda precisou esperar quase meia hora para que o show recomeçasse. Eles queriam tocar e o público, queria assistí-los. Mesmo com os contratempos, o show continuou, e o final foi sensacional, pois houve uma identificação com o público e a banda.

Recentemente, o The Cure teve problemas de som na Espanha. Robert Smith pediu desculpas, fez um set acústico com voz e violão enquanto os técnicos resolviam o problema e depois, a banda retornou para um show matador.

Esses dois exemplos citados foram só para lembrar que problemas técnicos acontecem. Mas quando público e banda estão a fim, tudo se resolve.

O show do Echo já começou todo errado. A banda entrou com o palco praticamente aceso, sem metade da névoa dando o climão londrino e sem a sua tradicionalíssima vinheta com o canto gregoriano dando a deixa para o clímax. Só quem estava ali na frente animou com a chegada da banda. Noventa por cento da Fundição, permaneceu em um silêncio sepulcral.

A densa “Meteorites”, faixa título do novo álbum abre o show e estranhamente, Ian não para de olhar para os lados, dando sinal de que o retorno do som não existia para ele. O roadie desengonçado entra pela primeira vez e o vocalista cochicha algo em seu ouvido. Ian ainda dá o sinal para que o baterista bata mais forte no refrão. Algo está errado…

Rescue” vem em seguida e os primeiros acordes já animam o povo, mas novamente Ian McCulloch reclama algo com o roadie, que parecia desnorteado e vocifera algo imcompreensível no microfone no meio da música que o faz perder totalmente o andamento da canção. O público ajuda, a banda entra nos trilhos mas era visível que havia um constrangimento entre eles.

O set list foi praticamente o mesmo que a banda apresentou na turnê americana em agosto. A novidade foi a inclusão da linda “Rust”, do depressivo “What are you going to do with your life?” de 1999, que também soou horrível com a falta de equalização do som, que fez desaparecer os teclados e o baixo da música.

Não é novidade de que o som da Fundação Progresso é sofrível. O local já é bem conhecido pela péssima acústica. Mas para uma banda como os Bunnymen, que possui milhares de efeitos em digital delay, vozes triplas e teclados orquestrados, principalmente nas (ótimas) canções do novo álbum, o resultado é desastroso. “Constantinople” foi um exemplo. A nova música foi prejudicada (e muito) por causa desse problema recorrente da casa. Nem de longe sugeriu a frieza que melodia impõe.

Frieza, aliás, foi outro ponto crucial para eu a apresentação descesse ladeira abaixo. O tempo inteiro Ian reclamava do som, parecendo uma versão inglesa do “síndico” Tim Maia e o seu lado crooner estava irritando o baterista Nick Kilroe (ex Black Velvets e que também participou com Will e o antigo baixista Les Pattinson, no projeto instrumental Poltergeist). Nick definitivamente não é um bom baterista para tocar com os Bunnymen. É até covardia compará-lo com Pete de Freitas, que era considerado um dos melhores do mundo… mas Nick não consegue fazer 10% das viradas que o saudoso realizava, e que acabaram sendo uma marca registrada da banda, principalmente em clássicos como “The Back of love” (que nem deu as caras) e “All that jazz“.

Em pouco mais de 1 hora de show, nem “Do it clean”, que geralmente é uma das mais fortes, animou o público. Durante as inserções de “Sex Machine” (James Brown) e “When I fall in love” (Nat King Cole), dava a nítida impressão que Ian estava incomodado e querendo que a canção acabasse o mais rápido possível. Entre uma canção e outra, mais uma vez, o silêncio… E, na boa, isso é horrível para quem está se apresentando em cima de um palco. Público em um show de rock tem que urrar, pular, cantar junto e soltar os demônios. Participar, junto com a banda é questão primordial. Quem quer ficar apreciando estático deve passar a frequentar mais o Theatro Municipal e assistir um ballet ou ópera. Existem ótimas dicas para quem está a fim de curtir um momento mais relax. Portanto, DEFINITIVAMENTE, fila do gargarejo não é lugar pra uma galerinha desavisada que fica “putinha” se alguém esbarra ou pisa no pé, aprendam isso!

A única que realmente fez o povo se esgoelar (ok, nem todos), foi “The Cutter”, provocadora de arrepios em 100% dos fãs dos homens-coelhos. Ao final, um goodbye, a banda sai e após um insosso pedido de volta (um integrante da equipe teve que quase pedir pelo amor de Deus pra galera bater palma), as luzes se acendem e um novo constrangimento tem início.

O público do gargarejo, incrédulo, assiste os roadies desmontarem aos poucos, o palco, ainda com as luzes apagadas. O DJ Edinho entra com “With a Hip”, as luzes se acendem. Vaias generalizadas e objetos são jogados em direção aos técnicos que não tinham culpa de nada.

Faltou sensibilidade da banda? Sim, faltou! Eles poderiam retornar pelo menos para se despedir da forma correta para quem esperou por tanto tempo por um retorno. Hits como “Nothing lasts forever”, “Lips like sugar” e “Ocean rain” ficaram de fora.

Faltou empolgação do público? Sim, faltou! É inadmissível que a galera não participe celebrando com os músicos. Já estive em shows completamente vazios onde havia tanta animação, que compensava os espaços vazios… Não vibrar com o início e não fazer o chão tremer em um show de rock é horroroso.

Faltou ensaio e passagem de som? Sim, faltou e isso era notório entre eles, que estavam visivelmente tensos com a apresentação. Os últimos shows antes do Rio haviam sido em agosto e Ian tem a péssima mania de não comparecer aos soundchecks, que muito provavelmente não aconteceu. Além disso, não houve sequer a checagem do volume do microfone. Bola fora!

Enfim, como expliquei no último parágrafo da primeira parte deste texto, sempre há a expectativa em receber o Echo and the Bunnymen no país. O reencontro sempre vai ser um motivo de festa. Só que dessa vez, ao invés do abraço, só rolou um aperto de mão. E nem houve aquela pungente despedida com a promessa de um novo reencontro com público do Rio de Janeiro, que fez história na própria história da banda.

(Por Marcos Araújo – texto e fotos)

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Cara!

“Mais som, mais grave, mais agudo… mais tudo!”

Quem foi à Fundição Progresso na noite do dia 1º de novembro na volta do Echo & the Bunnymen à cidade maravilhosa depois de oito anos ficou com a impressão de que o espírito de porco, diga-se de passagem – que encarnava no síndico Tim Maia desceu no Mac.  Já no início do set com “Meteorites” ele olhou para o lado e começou a série de fuzilamentos verbais em direção ao roadie/técnico de som do palco.

E troca cabo do baixo, do teclado, da guiatarra base, microfone do vocal… uma constante que culminou com a saída da banda após pouco mais de setenta minutos, apesar do chamado da plateia com o sorriso amarelo do tecladista.  Sem resultado.  Não voltaram e, para piorar, o DJ Edinho começou a tocar músicas dos Bunnymen nos falantes.  Foi a senha para uma vaia estrondosa, arremessos de latas em direção ao palco, gritos de indignação e protestos.  O show foi bom? Sim, foi.  Menos para o Ian.

Porém, problemas de som toda casa de show tem e pode ter.  Para resolver esses percalços é que existe uma coisinha chamada “passagem de som” – o que a banda ignorou e não fez.  BINGO!  Feridos, somente os corações dos fãs de primeira e de muitas jornadas pela atitude infantil e intempestiva do novo síndico da Lapa: Ian Stephem McCulloch.

A moeda sempre tem dois lados.

Coroa!

(Por Alex S.Sobrinho)

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