Editorial

15 anos depois…
Você pode estar conhecendo o FANZ somente agora, mas na verdade, ele existe desde 1992.

Na época, a internet no Brasil era somente um embrião. Levavam-se horas para conseguir uma conexão, limitado a empresas. Somente quatro anos mais tarde, começariam a aparecer alguns provedores que vendiam assinaturas de acesso. Alguém se lembra daqueles cd´s da AOL e aquele barulhinho do modem e as telas que levavam em média, 20 minutos para aparecer?

No ano de 1992 acontecia a ECO-92, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente. Foi a primeira vez, também que estudantes (os chamados “caras-pintadas” foram às ruas em manifestações crescentes, pedindo a saída do Presidente da República, Fernando Collor, que renunciou meses depois. Neste mesmo ano, morria Ulysses Guimarães; o país se chocava com o assassinato da atriz Daniela Perez por Guilherme de Pádua e a Polícia Militar do Estado de São Paulo, liderada pelo Cel. Ubiratan Guimarães, invadiu a Casa de Detenção após o início de uma rebelião no Pavilhão 9, exterminando 111 presos, no que ficou conhecido como o Massacre do Carandiru.

Pode parecer longínquo, mas na área musical, um ano antes, Pearl Jam e Smashing Pumpkins lançavam seus primeiros discos (“Ten” e “Gish”), o Nirvana de Kurt Cobain, Chris Novoselic e Dave Grohl detonava os ouvidos do mundo com o ótimo “Nevermind” e os integrantes do Pixies já estavam até se separando após o lançamento de “Trompe Le Monde”.

O interessante era que, mesmo com toda dificuldade que se tinha para ouvir esses lançamentos (sim, existia a MTV e a Bizz, mas o som taxado de “alternativo” ainda ocupava pouco espaço nessas mídias), existia uma galera que garimpava novos sons. No Centro do Rio, na Rua 13 de maio, jovens se encontravam para comprar discos raros e muitos traziam novidades importadas. Ali, entre eles, circulavam Marcelo D2, Marcelo Camelo, Ronaldo Chorão, Larry Antha, Nervoso, Simone do Vale e mais uma dezena de figuras que depois passaram a ficar conhecidos nos palcos dos submundos cariocas.

Todos idolatravam o Second Come, uma banda que cantava em inglês e que surgiu após o fim de outra banda também alternativa, o Eterno Grito. Na verdade, toda essa galera já vinha influenciada por uma outra movimentação que havia sido iniciada em meados dos anos oitenta: todos eram fãs de Mercenárias, Cabine C, Picassos Falsos, Hojerizah, Violeta de Outono, Finis Africae, Black Future, Pin Ups e DeFalla. Mas ao que tudo indicava, o Second Come, que havia sido criado em 1989, conseguia traduzir o melhor da energia do Pixies e mais toda a geração grunge de Seattle que nascia junto. Foi uma conjunção de fatores, como se todo mundo pensasse igual na época.

A partir daí, bandas pipocavam em cada esquina: Beach Lizards, Pelv´s, Gangrena Gasosa, Sex Noise, Poindexter, Soutien Xiita, Piu Piu e sua banda, Dash, Divisão X, Wonderland, Zumbi do Mato, The Cigarettes, Scars Souls, Terrible Head Cream, Drivellers, Cabeça, Kamundjangos, Planet Hemp… e quem pensa que o movimento era restrito no Rio de Janeiro, bandas do Brasil inteiro produziam suas próprias demos. Foi o caso do Concreteness, Low Dream, Mickey Junkies, Sleepwalkers, Loveless Compound, Velouria, Brincando de deus, The Power of the Bira, Speedwhale, Snooze, Killing Chainsaw, Old Magic Pallas, Happy Cow, Oz, Raimundos… ou seja, de norte a sul do país.

E como divulgar o trabalho dessas bandas se ainda não existia a internet?

O trabalho era realizado boca a boca. Flyers em xerox divulgavam os shows, que eram difíceis de serem marcados. Quando aconteciam, o som era péssimo, a estrutura era péssima, não existia cachê, nem grana para a cerveja.

Existiam poucos locais bacanas para shows. Um era o Caverna, em Botafogo. Mas o mais conhecido era o Garage (um casarão na Rua Ceará que pertencia ao Motoclube do Brasil) e que foi o espaço mais importante para as bandas alternativas divulgarem o seu som.

E foi nessa conjuntura que os fanzines começaram a aparecer. Assim como as bandas produziam suas próprias demos (como eram chamados os K-7 com as músicas gravadas) em um modo bem artesanal, os zines também seguiam o estilo. Noventa e nove por cento das publicações eram diagramadas através de colagens, textos datilografados ou mesmo escritos à mão e depois, xerocados. A distribuição era realizada na porta de shows. Quando as bandas eram de outro estado, o editor do fanzine sempre trazia alguns exemplares a mais. As próprias bandas eram responsáveis por redistribuir em suas cidades.

Essa “teia” é o que vemos hoje na internet em redes como o facebook, por exemplo. A criação dos laços fortes já era visto em 1992/1993. E foi nesse contexto que o Fanz foi criado. Existiam bandas e coisas tão bacanas para serem divulgados, mas que dificilmente apareceriam em uma escala maior. E, assim como os fanzines foram os principais veículos e articuladores do movimento punk no fim da década de 1970, na Inglaterra, aqui eles apareceram como resposta proativa à indignação pela falta de espaço na mídia.

O Fanz ainda demorou um pouquinho para ser lançado. O número 1 saiu em abril de 1993 com uma divertidíssima entrevista com o Gangrena Gasosa que havia sido realizada no terraço da casa do baterista Cid, ao lado de montanhas de gibis e tigelas de barro de macumba que ficou na história do fanzine. Farpas do então vocalista Ronaldo Chorão não faltaram… e muita gente foi para boca do sapo. Um panorama sobre a história do Bauhaus e do Echo and the Bunnymen também estavam neste primeiro número, que ainda trazia as resenhas dos shows do Hollywood Rock e sua melhor edição, com os históricos shows do Nirvana, Alice in Chains, DeFalla e L7.

Três meses depois, o número 2 veio com Second Come, Poindexter, Low Dream, Mr. Bungle e Poster Children. Finalizando o ano, o terceiro número trouxe uma grande credibilidade ao fanzine com uma enxurrada de elogios. A Gangrena Gasosa novamente deu as caras, ao lado de uma ótima entrevista com o Wonderland e a poesia de Augusto dos Anjos.

A quarta edição certamente foi a que teve o maior número de cópias em xerox, impulsionados por entrevistas exclusivas com o grupo Pin Ups, Sex Noise, Pelvs, Drivellers e Ratos de Porão, além de matérias bacanas sobre os Ramones, Nirvana e Raimundos. No número 5, os cariocas do Beach Lizards e do Scars Souls dividiam as páginas com os paulistas do Mickey Junkies, além da entrevista que nunca aconteceu com o Second Come, já que o vocalista Fábio Leopoldino não gostava muito de falar…

O número seis foi a última edição em xerox e trazia um panorama sobre cinema alternativo com os nomes de Tarantino e Almodóvar; um papo muito louco com o Dash, com Formigão, Simone do Vale e Kadu enchendo a cara na Rua Farani, em Botafogo, os shows da Expoalternative (um dos melhores festivais já acontecidos no RJ, revelando as bandas independentes), o punk rock dos Pinheads, a mudança no som do Wonderland, o shoegaze do Loveless Compound e os ingleses do The Cult.

Os dois números seguintes, já em formato jornal, incorporava literatura, teatro, cinema e HQ´s, ao lado de bandas alternativas e pop. Essa mudança na proposta editorial certamente tornou o Fanz muito mais democrático. Rimbaud, Ed Wood, Charles Baudelaire e Nelson Rodrigues poderiam estar ao lado de Foo Fighters, Snooze e Divisão X, por que não?

A variedade das pautas continuava sendo a tônica do número 8 ½ . Sim, oito-e-meio, já que eram sobras de matérias que não haviam sido publicadas na edição em jornal por falta de espaço. Neste número especial, matérias sobre o cineasta Roman Polanski, o esporro do Sonic Youth e o encontro de dois profetas: Nostradamus e Gentileza.

O último número (9), nunca chegou a ser publicado, pois simplesmente os arquivos desapareceram a caminho da gráfica. Como só existia uma cópia, ele se perdeu para sempre. Como um resquício da lembrança, a capa destacava Radiohead, Autoramas, o artista plástico Farnese de Andrade e o carnavalesco Joaosinho Trinta.

Treze anos depois do último número que nunca saiu, o Fanz está de volta. Com um outro cenário no mundo, muito mais moderno, a ideia de retomar o fanzine em formato de papel estava descartada. Tinha que ser mais ágil, dinâmico e continuar tendo a mesma diversidade das pautas de outrora. E o mesmo senso democrático.

Faltava então montar o time. O publicitário Gabriel Neumann acreditou na loucura em recriar o Fanz no mundo virtual. Tenho que agradecer a esse cara, que, quando o zine foi criado era somente uma criancinha ainda. Para o irmão e amigo Pawel Keller, a incumbência de retratar um assunto que é a nossa cara: um panorama sobre o ano de 1984 e todas as bandas que fizeram parte da história de nossas vidas: The Cure, Echo and the Bunnymen, REM, Smiths, Cocteau Twins, The Cult, Siouxsie and the Banshees e U2 em uma matéria especial e detalhadíssima, que vale a pena ler e se deliciar da primeira à última linha. Obrigado também ao velho de guerra Beto Martins e suas sempre ácidas HQ´s.

Não poderia deixar de trazer o Sex Noise de volta; afinal, a figura quase folclórica do vocalista Larry acompanhou toda a trajetória do Fanz desde a sua criação; e por incrível que pareça, a banda continua “alive and kicking” até hoje. O lançamento do EP “Azul” é a prova disso. Longa vida ao Sex Noise!

Agradeço também a todos os colaboradores, que acreditaram no Fanz: Julio Cesar Brito, Caique Cunha, Glauco Ribeiro. Eles foram os primeiros.  E a lista pode crescer, pois o Fanz é um site colaborativo.  E de todos.  Não poderia deixar também de agradecer a toda a galera de Araguari (a Seattle brasileira), principalmente Erika Silva e todos os amigos que fiz lá, desde adolescente, além de todas as bandas alternativas dos 90´s, muitas ainda resistindo até hoje e que certamente serão referência para o futuro, não tão distante assim…

Savages, Pixies, Arcade Fire, Neusinha Brizola, Debbie Gibson, Farnese de Andrade, Lava Divers, Ron Mueck, literatura, cinema, teatro e cidadania. Aqui no Fanz não importa o estilo. É um espaço para todos. Alternativo-pop-samba-punk-heavy-doom-funk-gothic-newromantic-rockabilly-clássico-postpunk-psychedelic-hardcore-indie-tecnopop-jazz-progressivo-MPB-hiphop-trance-grunge-surfmusic-new wave.

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