Um gesto capaz de salvar vidas

9 de março de 2014

Quantas pessoas você conhece que doa sangue com frequência?  Certamente pouquíssimas delas.  A população brasileira, apesar de ser solidária em momentos de crise, não possui realmente o hábito de doar sangue regularmente.  Menos de 2% da população faz isso, o que é muito pouco.  Para se ter uma ideia, são coletadas em torno de 3,5 milhões de bolsas de sangue em todo o Brasil, quando o ideal seria aproximadamente 5,7 milhões.

E para que serve a doação de sangue?

Bem, como todo mundo sabe, o sangue é um tecido.  Cada um de nós tem em média, um volume de cinco a seis litros de sangue circulando pelo corpo, representando cerca de 7% de seu peso.

Todos os dias, os hospitais recebem milhares de pessoas que sofrem acidentes de várias naturezas: por armas de fogo, pérfuro-cortantes, atropelamentos, quedas, queimaduras violentas… muitas mulheres tem complicações na hora do parto, outras pessoas precisam realizar cirurgias de emergência, como podemos observar em fraturas expostas, cirurgias cardíacas e transplantes de órgãos.  Uma outra parcela imensa possui doenças graves do sangue como leucemias, anemias severas e linfomas; precisam fazer quimioterapia constantemente; outros possuem enfermidades desde que nasceram e que nunca terão cura, como a doença falciforme e a hemofilia.

Em todos esses casos citados, o sangue, ou uma parte de seus componentes é essencial para que esses indivíduos continuem vivendo.

Na doação de sangue, são coletadas cerca de 450 ml (que não chega nem a ser meio litro), que é rapidamente reposta pelo organismo.  Em cada Estado brasileiro há um local que centraliza as doações e coordena tecnicamente outros pontos de coleta.  Esse local é chamado hemocentro.

No hemocentro, existem vários profissionais capacitados para realizar o procedimento da doação, que sempre estão sob a supervisão de médicos e enfermeiros, que garantem o bem estar do doador.  Todo o processo, desde a chegada, o preenchimento do questionário, a entrevista, a coleta e o lanche leva em torno de 1 hora.  A doação em si, é bem rápida.  O doador fica menos de 10 minutinhos sentado na cadeira realizando a coleta.  Vale ressaltar que não existe risco algum de se contrair uma doença infecto contagiosa doando sangue pois todo material utilizado é descartável.

A triagem geralmente é bem rigorosa mesmo.  Por isso, é importante não omitir nenhuma informação.  Os hemocentros seguem uma legislação aplicada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa e o Ministério da Saúde em regras estabelecidas através de resultados de pesquisas e estudos epidemiológicos de países em todo o mundo.  Por isso, nem todo mundo que quer doar, efetivamente pode doar.  E isso não deve ser visto como uma exclusão.  Todos os dias, cerca de 20% das pessoas que comparecem a um hemocentro não podem doar por algum motivo, depois que são triadas.  Mas quem não pôde doar, não deve desanimar: a informação correta também é muito importante para que se consigam mais doadores.  Como disse, menos de 2% da população doa sangue com regularidade.  Muitos ainda tem o tal famoso medo da agulha, mas, o mais incrível é que infelizmente, a população não doa pois não sabe para que serve a doação de sangue.

Em um mundo onde temos tantas coisas para resolver, com tanta falta de tempo, a doação de sangue acaba ficando para um segundo plano mesmo.  Por isso que, em períodos de férias escolares, Natal, reveillón, grandes feriados, calor ou frio excessivo ou chuvas, os hemocentros ficam mais vazios do que habitualmente.  Nestes períodos geralmente a população está focada em outros assuntos: ou estão se programando para viajar, ou estão preparando a ceia e comprando os presentes de Natal em um shopping lotado, estão armando uma praiazinha ou estão com preguiça de sair debaixo do edredon.

Enquanto isso, muitos pacientes esperam por um doador.  É uma luta contra o relógio, o tempo inteiro.  Por isso é importante que façamos da doação de sangue, um hábito.  Já repararam o quanto tempo gastamos assistindo a uma partida de futebol?  Um cineminha com os amigos?  Um capítulo de uma novela?  Isso leva muito mais tempo do que doando sangue, acreditem.  Se cada pessoa saudável doasse sangue espontaneamente pelo menos duas vezes ao ano, os hemocentros teriam material suficiente para atender a toda população.

Lembre-se que não existe substituto para o sangue.  O sangue artificial é uma promessa para muitos, mas muitos anos para a frente que talvez nem nossos netos ainda poderão vivenciar.  Com uma única doação, quatro pessoas podem ser salvas, simultaneamente.  Isso acontece porque a bolsa de sangue é fracionada nos laboratórios do hemocentro.  Da bolsa de sangue doada, são separados os glóbulos vermelhos (que são utilizados em pacientes com anemias, que sofreram acidentes ou que precisam realizar cirurgias); as plaquetas (que servem para tratar sangramentos, em pessoas que realizam quimioterapia) e o plasma (que é a parte líquida do sangue) onde ficam suspensas – flutuando mesmo – os glóbulos vermelhos, brancos e as plaquetas e que são utilizados para repor a excessiva perda de líquidos orgânicos – como em queimaduras extensas – e na produção industrial de fatores de coagulação destinados aos pacientes com hemofilia.

Você pode ser o herói que muitos pacientes aguardam.  Mostre que você tem atitude nas veias.  Procure um hemocentro.  No Rio de Janeiro, o Hemorio funciona todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados (portanto, sem essa desculpa de que não tem tempo para ir até lá) das 7 às 18 horas.

Para doar é necessário:

• Ter idade entre 18 e 69 anos, 11 meses e 29 dias;
• Doadores com idade de 16 e 17 anos de idade, são aceitos para doação mediante a presença e autorização formal dos pais e/ou responsável legal;
• O limite de idade para primeira doação é de 60 anos;
• Pesar acima de 50 kg;
• Apresentar documento de identidade com foto, emitido por órgão oficial: RG., carteira profissional, carteira de motorista, etc.
• Ter repousado bem na noite antes da doação;
• Evitar o jejum. Fazer refeições leves e não gordurosas, nas 4 horas que antecedem a doação;
• Evitar uso de bebidas alcoólicas nas últimas 12 horas;
• Evitar vir acompanhado com crianças, sem acompanhantes.

Existem vários passos para a doação de sangue.  O primeiro é realizado na recepção e cadastro, onde o doador apresenta um documento de identidade e fornece ou atualiza seu endereço, e-mail e telefone.  O segundo é o preenchimento do questionário, que deve ser respondido com muito cuidado e sinceridade.  A terceira etapa é a triagem e a entrevista clínica.  Nessa etapa são verificados os sinais vitais (temperatura, pressão arterial), peso, altura e o candidato receberá uma “picadinha” no dedo para verificar seu hematócrito e o nível de hemoglobina.  A entrevista é sigilosa e confidencial; por isso, confie em seu entrevistador e seja sincero.  Depois, você assinará um termo de consentimento onde concorda com a coleta de sangue.  Na quarta etapa, se apto, o doador deve se hidratar tomando dois copos de suco e alguns biscoitos.  A coleta é a quinta etapa (e a mais aguardada) onde é realizada a coleta de 450 ml e aproximadamente 40 ml de amostras para os exames laboratoriais obrigatórios por lei.  Depois da doação, que nunca ultrapassa 10 minutos, chega a hora mais “gostosa”, que é o lanchinho oferecido.  Sempre fique pelo menos uns 15 minutos realizando o lanche com calma.

Após a doação, recomenda-se não praticar exercícios físicos e atividades perigosas, como subir em locais altos ou dirigir caminhão ou ônibus em rodovias; não forçar o braço em que foi realizada a punção no dia da doação para evitar sangramentos e hematomas e beber bastante líquido.  Os homens podem doar a cada 60 dias (no máximo 4 doações nos últimos 12 meses) e as mulheres a cada 90 dias (com três doações nos últimos 12 meses).

Então é isso, mãos (ou seja, veias) à obra!

Por Marcos Araújo

Além de ser um gesto solidário, a doação de sangue é um ato de cidadania.
Além de ser um gesto solidário, a doação de sangue é um ato de cidadania.


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