De volta ao começo

17 de maio de 2015

Fazia pelo menos uns 35 anos que eu não passava por aquele caminho, talvez evitado pelo jurássico trauma infantil.  Lembro-me bem quando tinha uns cinco ou seis anos e empaquei no meio daquele beco.  Acima de minha cabeça, eram vistos os trilhos.  E logo, vinha o trem, que passava, tremendo as paredes.  Lógico que ele nunca me atropelou, mas na minha neurótica imaginação infantil, havia o risco certeiro dos vagões cairem sob minha cabeça.  Naquela longínqua, fria e enevoada manhã, chorei muito, tapei os ouvidos e me encolhi, atrapalhando o fluxo de pedestres.

Quando tinha que percorrer aquela passagem subterrânea, sempre fazia às pressas.  Fui crescendo, minha cabeça quase batia nos trilhos e a sensação de claustrofobia foi guiada até para meus piores pesadelos, à noite.  Muitas vezes acordava, suado, depois que despertava de meu inconsciente, rastejando por aquele beco, que cada vez se tornava menor.

Décadas depois, estava lá novamente, com meu pesadelo.  Apesar de sentir o coração disparar, não podia deixar o medo tomar conta de mim e resolvi enfrentá-lo.  O túnel tinha o mesmo cheiro, as paredes estavam mais corroídas, precisei encurvar todo o corpo, mas o túnel certamente estava bem menor.  Prendi a respiração e acelerei o passo, temendo que o som dos trilhos voltassem a tremer.  Ao ver o outro lado, parecia que eu tinha atravessado por uma vagina gigantesca.  Renascendo.

Por uma fração de segundos, senti um grande alívio e, olhando ao redor, reconheci algumas ruas e resolvi percorrer os mesmos caminhos que fazia quando criança.  Impressionante voltar ao mesmo lugar e enxergar o mundo como um adulto.  Quando crescemos, tudo ao nosso redor parece sempre muito pequeno.  A rua principal, que parecia cortada pela metade, continuava dando o acesso ao parque e à igreja, sempre iluminada nos tons azulados, mantendo a aura mágica como se levitasse nas nuvens.

Já que a primeira barreira havia sido transposta, estava mais do que na hora de reencontrar a velha casa, próximo ao parque.  Novamente o coração saltitou e, como se estivéssemos a minutos de rever um grande amigo que viajou para longe, uma grande emoção tomou conta de meu corpo.  Por uns minutos fiquei ali, parado, do outro lado da calçada, fitando as duas varandas em forma de arco e o quarto do meio.  As luzes estavam acesas, alertando que outros moradores agora residiam naqueles cômodos que eu conhecia tão bem.  Como uma visão de raio-x atravessando as paredes, fiquei ali, com os olhos marejados, tentando relembrar a posição de todos os móveis e me projetando nos mesmos tijolos vazados da varanda, a minha visão da igreja iluminada.

Atravessei a avenida e parei em frente ao portão pintado de outra cor e notei que apesar de terem instalado um porteiro eletrônico, pequenos detalhes como a arandela de gesso desenhada estavam no mesmo lugar.  Desgastada, mas ainda resistindo ao tempo.  Havia um breu no corredor, mas logo comecei ali, um diálogo na escuridão e minha íris reconheceu os mínimos detalhes como o piso de pastilhas, a torneira na parede, a tinta descascada e a bancada de mármore onde me refugiava durante as brincadeiras de esconde-esconde.

Foi um diálogo ameaçador.  Minha miopia não permitiu enxergar o fim daquele corredor, mas reconheci que, assim como o as ruas que momentos antes havia percorrido, também estava reduzido pela metade.  Uma agonia momentânea tomou conta de mim por não conseguir enxergar além, por mais que me esforçasse.  Mas entendi, num lampejo, que tudo é assim.  Enxergamos o que precisamos vislumbrar.  É necessário que as brumas continuem sempre atrapalhando nossa visão para que tenhamos a força e a curiosidade de ir além, mesmo sabendo que o caminho ocular a ser desbravado por uma criança é muito maior do que realmente parece ser.

Soltando as mãos das grades do portão, olhei no alto do morro, a imagem iluminada da igreja que brilhava ainda mais.  Dei um sorriso e fiz meu caminho de retorno para casa, ou para dentro de mim.

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