Pixies fora d’água

6 de abril de 2014

PIXIES – Festival Lollapalooza – São Paulo 

Por Marcos Araújo – Fotos: I Hate Flash / Schlaepfer

Kurt Cobain deve ter aprendido a “cantar berrando” ouvindo Pixies. O inesquecível vocalista e guitarrista inclusive disse várias vezes que o Nirvana não existiria se não fosse o Pixies.

Lembrei disso quando, minutos antes deles iniciarem o show no palco do Lollapalooza com a clássica “Bone Machine”, eu revelava a um amigo que o meu sonho era gritar como Black Francis. Sempre ficava tentando imitar aqueles grunhidos de “Rock Music” e “Tame”, mas o máximo que eu conseguia era engasgar e tossir histericamente depois de forçar tanto as cordas vocais.

Lembrei também daquele histórico show de 2004 na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, quando em um frio inimaginável, tirei a camisa enlouquecido para rodá-la como um ventilador durante “River Euphrates”.

Os gritos de Francis não fizeram meus ouvidos zunirem. A guitarra de Santiago não estavam com aqueles decibeis acima do que podemos suportar… Afinal, o que estava acontecendo no som durante o show dos Pixies? Estava tudo muito baixo e embolado. E talvez esse tenha sido o principal fator que fez com que o público ficasse um pouco desanimado.

A nova baixista chama atenção. Tem aquele charme da Simone do Vale (ex-Autoramas / Dash). O nome dela é Paz Lenchantin e só está na banda há quatro meses, pois substituiu Kim Shattuck, demitida no fim de novembro. Ela, por sua vez, ficou apenas cinco meses no grupo, no lugar de Kim Deal, uma das fundadoras do Pixies.

Lenchantin, que nasceu na Argentina e é descendente de franceses e armenos, já tocou no Zwan, de Billy Corgan, A Perfect Circle e participou do álbum “Songs for the Deaf” do Queens of the Stone Age. Apesar de ser uma craque no baixo, senti falta de Kim Deal, que mesmo com aquele jeitão enrolado (alguém já viu um dia a Kim tocar – seja no Pixies ou no Breeders – e se entender com os fios, microfone e volume do amplificador do baixo?) era uma marca registrada do quarteto. Dave Lovering, Black Francis e Joey Santiago sempre pareceram os mais certinhos, preocupados na sonoridade e postura. Kim já era largadona… vivia o show inteiro como se tivesse fumado unzinho.

Hoje às vezes me pego refletindo que, talvez, Kim fosse a mais certa ali. Como levar à sério uma banda com letras na maioria incompreensíveis e que falavam de discos voadores, práticas bizarras, violência extrema, voyeurismo, tortura e incesto? Quando eu assistia os vídeos de shows ao vivo do quarteto e a câmera filmava o rosto de Kim Deal, ela sempre estava com aquele sorrisinho simpático e ao mesmo tempo debochado. E aquela voz doce, em dueto com os insanos berros de Francis, faziam toda a diferença.

Apesar do repertório não ter sido mal escolhido (eles até privilegiaram no set muitas canções da carreira com o sotaque portoriquenho) e as novas canções serem até bem bacanas, como “Blue Eyed Hexe” e “Bagboy”, definitivamente assistir a uma apresentação do Pixies sem “Debaser”, não dá. Não… não dá! É a mesma coisa que estar em um show do Cure e eles pularem “A Forest” ou então o Echo and the Bunnymen cansar de “The Killing Moon”.
Faltou “Debaser”. Faltou interação. Faltou equalizar e aumentar o volume. Black Francis e seus asseclas ficaram devendo. O macaco não foi pro céu dessa vez…

Set list: Bone Machine / Cactus / Something against you / Broken Face / Brick is red / Gouge away / Bagboy / Monkey gone to heaven / Blue Eyed Hexe / I´ve been tired / Magdalena / Caribou / Nimrod´s son / Indie Cindy / Ed is dead / Where is my mind? / Here comes your man / La la love you / The Holiday song / Green and blues / Hey / U-Mass / Planet of sound