Corra, Lolla, corra!

29 de março de 2014

FESTIVAL LOLLAPALOOZA – Parque O´Higgins – Chile 

Por Pawel Keller (texto e fotos)

Há alguns anos o Lollapalooza tem feito seus eventos anuais na América Latina utilizando escalações análogas no Chile, Argentina e Brasil. A solução óbvia seria ir ao festival no Brasil, mas especificamente em São Paulo, mas neste ano resolvi ir ao Chile, que seria realizado uma semana antes. Com antecedência, o custo do pacote contendo passagens, hotéis e ingressos não fica tão distante daqui se você vai do Norte ou Nordeste até São Paulo. Na verdade, a maior diferença está nos aspectos culturais: o Chile é muito diferente do Brasil, e ponto.

Ou seja, ponto pro Chile em: alimentação (diversas opções, desde hambúrguer vegetariano e sushi/sashimi até empanadas, passando por sorvete italiano e café expresso), educação (todas as filas muito ordenadas, até furei uma delas pra comprar uma camiseta e nem fui repreendido), layout (o Parque O’Higgins tem um tamanho ideal para distanciar os palcos sem que seja necessário realizar 1.500 metros com obstáculos para ir de um palco ao outro), ambiente (exceto para os fanáticos por automobilismo, um festival num parque é muito mais legal do que num autódromo), transporte (metrô a um minuto da entrada do parque, bastante linhas de ônibus e convênio com o Easy Taxi), caixas (um sistema de fichas bastante eficiente e uma profusão de atendentes que fazia com que não se perdessem mais que três minutos), lockers (era possível guardar comida e bebida caso você quisesse levar, além de um agasalho para o cair da noite quando a temperatura caía para perto de um dígito) e a língua espanhola (ver o Pixies num país hispânico traz um outro significado a músicas como “Isla de Encanta” e “Vamos”).

Já os pontos negativos foram: as bebidas (nenhuma bebida alcóolica foi vendida, não que para mim fizesse alguma diferença, mas apesar da venda de isotônicos e energéticos, me deu a sensação de um evento meio juvenil – especialmente as filas do café no início da noite eram de quase duas horas, talvez porque o nome do dito cujo era Marley Coffee…), o posto médico (fui tentar tomar um soro na veia porque alguma coisa não me caiu bem, mas depois de 20 minutos, em quatro tentativas infrutíferas de achar minhas veias, acabaram desistindo e me fizeram tomar água morna – sim, eles não tinham soro caseiro), a frieza das pessoas (apesar de muito educados, os chilenos são os nórdicos da América Latina) e o Andy Rourke (a ausência do baixista do Smiths que tocou em São Paulo, convidado pelo Johnny Marr).

Saldo do primeiro dia: o Cage The Elephant é uma banda nova que tem influências de rock setentista e fez um concerto catártico com o vocalista mergulhando na plateia – inclusive fazendo crowdsurfing duas vezes; o Imagine Dragons fez um bom show fazendo a alegria da garotada e entrando com o jogo ganho apoiado por alguns hits radiofônicos, mas apesar de estar calcado em boas referências, acho o som deles muito pouco original, o Nine Inch Nails apresentou um ótimo espetáculo de luzes e som alternando texturas eletrônicas e orgânicas; o Wailers tocou praticamente todo o Legend (álbum de coletâneas do Bob Marley) e pouca coisa pode ser melhor que isso; a grande decepção foi o Red Hot Chili Peppers (única diferença no line-up com o Brasil em substituição ao Muse), fazendo mais um show arrastado e displicente com as encheções de linguiça protocolares e abomináveis; mas o show do Phoenix é que foi realmente memorável, desde a euforia do baterista logo nos primeiros acordes de Entertainment! até a empatia do vocalista que se conectou com a plateia de maneira incontestável, se aproveitando do ótimo repertório do último álbum que consagra o indie pop da banda como uma alternativa viável e distinta no mar de cópias atual. Pena que tudo isso era só um aperitivo perto do grande dia que viria depois, estrelando Johnny Marr, Pixies, Soundgarden e New Order!

Saldo do segundo dia: o Johnny Fuckin Marr alfinetou Morrissey, jogou pra galera com “I Fought The Law” e destilou seus riffs pelos clássicos do Smiths, por uma versão lenta e estendida do primeiro hit do Electronic e pelas músicas do primeiro álbum solo, onde ele finalmente acertou a mão – enfim, ver esse gênio da guitarra ao vivo era simplesmente a peça que faltava no quebra-cabeça de muita gente, ou aquela figurinha que faltava para completar o álbum, escolham a metáfora, mas ver How Soon Is Now? pelas mãos do autor é simplesmente impagável; o Savages começou tímido, chegou a errar o começo de uma das músicas, mas tem estilo (copiado e chupado, mas como é de Siouxsie, a gente dá um descontaço), a vocalista estava muito charmosa de blusa branca e parece uma mistura de Bryan Ferry com Kate Moss com uma performance delicada mas concisa e a baixista se sobressai com linhas melódicas bastante interessantes num visual trevas total, mas definitivamente, não trata-se de uma banda pra ver às 5 da tarde num parque arborizado; o Vampire Weekend tem uma sonoridade original e nos tempos de hoje isso já é uma grande coisa, mas empolga pouco; aí veio o Pixies e aqueles gritos de Black Francis e bateria mágica de David Lovering e o ataque matador de Joey Santiago (andei lendo que algumas pessoas entendem que a banda sem a Kim Deal não é o Pixies… sinceramente, ela sempre me pareceu a mais desconectada e a nova baixista Paz Lenchantin deu conta do recado e pareceu trazer paz [sic] à banda), que em “Vamos”, canção escolhida pela banda para fechar o show ao invés de Debaser, faz um antisolo digno de figurar nos anais do Rock’n’Roll, somente com microfonias da guitarra: deixando a menina com seu boné falando sozinha no meio do palco, se esfregando com ela gentilmente para no final tirar o cabo do amplificador e fazer ainda mais barulho batucando na sua conta com os dedos e os dentes (!!!). A cereja do bolo desse show foi um brasileiro que marcou juntinho a grua que fazia as tomadas aéreas da platéia e toda hora levantava a bandeira do Brasil: eu! Depois desse atropelamento, qualquer terremoto não faria mais tanto estrago.

Mas alguns tentaram. Arcade Fire fez um show muito bonito. As musicas antigas continuam muito atuais e as novas também são ótimas. Encheram o palco com integrantes e instrumentos fosforescentes. As projeções no fundo são muito interessantes e conectam-se bem com o todo. Fizeram uma homenagem citando Pixies e New Order. Teria sido interessante ver o espetáculo na íntegra e com calma, mas a verdade é que nesses festivais de hoje em dia, onde você não tem tempo nem pra ir ao banheiro quanto mais comer, senão vai perder aquela música que mais queria ouvir, a palavra de ordem é escolha, porque só correr ajuda, mas não resolve. E no final deste show ocorreu a última das muitas escolhas de Sofia: New Order ou Soundgarden? Fui ver os ingleses. Começaram lindamente, a voz do Bernie é sempre uma benção, mas como já tinha visto a banda em 2006, resolvi sair depois de ter visto o que “bastava”: a terceira música do set, “Singularity”, uma inédita depois de muitos anos, lembrando o clima ainda sombrio do Power, Corruption & Lies, de 1983, para emendar na seqüência com uma música deste mesmo álbum, “Your Silent Face”, executada primorosamente incluindo a introdução com a escaleta, e em sincronia com um filme de imagens estonteantes. Já o Soundgarden veio com o Matt errado. Eu ainda tinha esperança de que o Cameron viesse, mas veio o Chamberlain. Desde o voz e violão do SWU em 2011, eu esperava o poder sonoro da banda que acabou não aparecendo. Até a mixagem do P.A. deixava a bateria mais minguada, evidenciando ainda mais o que já era nítido. A excelente voz do Chris Cornell começou a ratear no meio do concerto, como de costume, e o show ficou muito morno no final das contas, apesar do setlist privilegiando os 20 anos do primoroso Superunknown. Eu tentei voltar para o New Order, mas já era tarde demais – era hora de voltar pro hotel antes da multidão, que já ia pra casa anestesiada.