Abrindo a porta da esperança

2 de abril de 2014

Quando “A Porta da Frente” sobrepõe a “Porta dos Fundos”

Por Julio Cesar Brito

Há meses vinha recebendo um convite para assistir ao espetáculo “A Porta da Frente”. Já na sua última semana no teatro da Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, resolvi ir.

Um tanto quanto contrariado, confesso… e por inúmeros motivos: era um dia útil de semana, o teatro é muito longe da minha casa (ainda teria de acordar cedo para trabalhar no dia seguinte) e, principalmente, por desconhecer completamente a temática que seria abordada… Pois bem, fui apenas para acompanhar amigos. E só.

E confesso que me surpreendi (e muito!) com o que vi, do cenário às atuações. Nova surpresa tive quando fui convidado para escrever sobre esse espetáculo para o Fanz. Na verdade foi um “mix” de vários sentimentos: surpresa, ansiedade, excitação, nervosismo, medo… Não sou jornalista, não tenho formação acadêmica em artes cênicas ou profissões do gênero (minha formação é jurídica e trabalho no ramo de negócios), mas gosto de escrever.

Tanto quanto gosto de cultura, das mais eruditas às mais “thrashes”. Meu medo ia de encontro às possíveis críticas que eu poderia receber pelo meu texto, afinal, como já disse, não sou especialista nesse seguimento. Esse aperto foi aumentando, quando li uma crítica da Bárbara Heliodora (uma das mais conceituadas do meio) sobre a peça e sua autora, a carioca Julia Spadaccini, no jornal O Globo (edição de 10/7/13): ”uma dramaturga jovem, mas constante, cujo talento para apresentar idéias em termos de ação, ou seja, para teatro, vai se solidificando com cada novo texto”. Julia, atualmente com 35 anos, tem se consolidado com bom textos e, por conseqüência vem, de forma tímida mas contundente, colecionando prêmios (duas indicações ao Prêmio Shell, para a comédia “Quebra Ossos”, de 2012 e o drama “Aos Domingos”, de 2013).

Introdução à parte, defini então a linha do meu texto: expectador. Mero e simples expectador. Posso colocar minha impressão, minha visão e minha crítica, sem correr o risco de ser criticado. Não vou fazer uma análise técnica, mas emocional.

Passada a sensação inicial de “obrigação de amigo” e de acompanhar o grupo, fui me surpreendendo a cada minuto de duração do espetáculo. Sou fissurado em novelas e minisséries (de todos os tipos e todos os autores) e muito tem me chamado atenção nas últimas produções televisivas uma tendência: as histórias começam sempre pelo final. É da última cena que começam a ser contados os folhetins e somente meses depois o telespectador percebe que aquele começo era, na verdade, o fim. Foi assim com a minissérie “Maysa”, o “remake” da novela “O Astro” e mais recentemente as microsséries “O canto da Sereia”, “Amores Roubados” e “A Teia”.

E assim começa, também, “A Porta da Frente”. Pela “porta dos fundos”. Ou seja, do seu final. Marca bastante o silêncio do teatro confrontando-se quase que de surpresa com os gritos de “Eu te amo! Eu te amo!” da personagem Jonas (interpretada por Felipe Haiut) ao som de uma melodia gostosa, porém até aquele dia, desconhecida por mim: a música “Walk On The Wild Side”, de Lou Reed, que também foi vocalista de uma das bandas de vanguarda mais importantes do cenário alternativo norte-americano, cultuada até hoje, o Velvet Underground.

“A porta da frente” é o décimo oitavo texto montado em apenas 10 anos, escrito por Julia. Apesar de não ter tido a oportunidade de assistir todos os espetáculos que levaram sua assinatura, me pareceu que, dessa vez, ela acertou novamente. Recebeu o 26º. Prêmio Shell, de melhor texto, este ano.

O espetáculo é a quarta montagem encenada pela Companhia de Teatro Casa de Jorge, da qual Julia é uma das fundadoras, ao lado de Jorge Caetano. E a ele cabe a direção da peça e o papel do protagonista “Sasha”, um homem declaradamente heterossexual, mas que gosta de vestir roupas de mulher.

Passada a “cena final”, a peça inicia com a conversa da personagem “Lenita”, interpretada pela veterana Malu Valle, deliciosamente maliciosa, com uma amiga, sobre seu caso “extra-conjugal”. Sim, entre aspas. Isso porque seu amante é virtual. Eles namoram pela internet e ela passa horas do dia (e às vezes da madrugada) na frente do computador, falando das suas fantasias, porém sem coragem de vivê-las fora daquele mundo cibernético. Casada com Rui, um corretor de imóveis medíodre (personagem de Rogério de Freitas), são pais de um casal de gêmeos: Jonas, personagem do Haiut e Natália (Nina Reis). Faz parte ainda dessa família, D. Marilu (interpretada por Maria Esmeralda Forte), mãe da personagem Lenita. É ela quem anuncia a chegada de um novo morador. Como demonstra uma espécie de comportamento esclerosado, pois esquece e se confunde com situações diversas vezes, ninguém, no primeiro momento, leva em consideração essa notícia. Crêem ser mais um delírio da personagem, que é quem mais troca de roupas na peça (faz várias remissões com as vestimentas, a um momento do seu passado) e dona de várias tiradas engraçadas. Aliás, tiradas engraçadas tem em muitos momentos do espetáculo, o que faz com que todos os atores tenham seu momento de brilho e inteligentemente bem aproveitados por cada um deles. Entre veteranos e novatos, todos se saem muito bem.

Anunciada a chegada do novo morador, pela “velha louca”, todos em algum momento acabam cruzando com o dia-a-dia e o comportamento do vizinho. Sasha, um “crossdresser” (vale lembrar que o termo não é sinônimo, necessariamente, de ser gay e nem sempre implica na mudança de interesse sexual, significa muitas vezes, apenas um homem que gosta e fantasia se vestir de mulher), vive cantando e incomodando a família de D. Marilu, exceto a própria esclerosada, que várias vezes confunde o genro com seu falecido marido. A personagem, chamada de “travesti”, flerta constantemente com um ícone do “glam rock”.

Mas o que seria “Glam Rock”? É a abreviação de “Glamour Rock”. Segundo o “wikipedia”, trata-se de um gênero musical (sendo um subgênero do rock) criado na Inglaterra, conhecido também como “glitter rock”. Foi um estilo de música nascido no final dos anos 60 e popularizado no início dos anos 70, tendo o visual andrógino, a maquiagem vistosa e os trajes extravagantes de David Bowie como a principal referência, seguido no Brasil pelo grupo Secos & Molhados, que destacou o cantor Ney Matogrosso.

É nesse estilo que se encaixa a personagem Sasha. O flerte do qual falei, vai de encontro ao legado (e claramente inspirado) de um dos principais ícones do gênero: Lou Reed (por isso ao longo da peça, vamos entendendo a inspiração que a trilha sonora nos remete). Sasha conta que o disco “Transformer”, foi inspirado nele próprio, já que foi muito amigo do cantor.

O texto fala sobre repressão, desejos e preconceitos. A mãe, Marilu, é homofóbica e tenta imprimir uma imagem de “família perfeita”, porém conflita-se o tempo todo com isso. A prova é seu namoro virtual. O dia-a-dia da família é cercado de insatisfação e resignação. As tiradas engraçadas (que são muitas), seguem a máxima de que “seria trágico se não fosse cômico”, mas é um texto para se pensar. A leveza do espetáculo se dá pelas perfeitas atuações de Felipe Haiut, jovem ator que consegue imprimir muita veracidade no comportamento reprimido de sua personagem e de Nina Reis, exagerada na medida certa com sua Nathália. Me surpreendi, de verdade, com eles.

Confesso que Jorge Caetano (o “travesti”), não chega, aos meus olhos, a ter uma atuação surpreendente ou emocionante; porém cumpre bem seu papel como agente transformador daquela família, que vivia resignada, presa à rotina de seu dia-a-dia. Como também dirige o espetáculo, classifico como ótima sua marcação e desenvolvimento do enredo proposto pela autora.

Os destaques, além dos jovens atores, em ordem de admiração ficam, para mim, com Rogério Freitas (o pai), Maria Esmeralda Forte (a avó) e Malu Valle (a mãe). Rogério vai, ao longo da peça, construindo de maneira muito inteligente a modificação do seu personagem que se dá após estabelecer uma amizade com o crossdresser. É ai, que as coisas começam a mudar. Ordenado pela mulher (Malu Valle nos mostra o que a experiência faz com um ator de talento, e brilha com pequenas tiradas e expressões comportamentais), que sonha em vê-lo como síndico do prédio, o corretor vai tirar satisfações com o novo vizinho, intentando demovê-lo da idéia de ouvir música e cantar diariamente. Acaba descobrindo prazeres e talentos que desconhecia, como cantar, por exemplo. Sasha começa a atuar como uma espécie de psicólogo e a amizade, sincera, vai rendendo à Rui, um resgate de competência no trabalho e de amor pela família e especialmente, pela sua própria mulher. Seu filho, posteriormente, também se torna amigo de Sasha e que mantém, também como sua mãe, uma namorada virtual. Tornam-se amigos e Sasha passa a aconselhá-los e ajudá-los.

Até que cansada do “entra e sai” do marido e do filho da casa daquele homem “estranho” e inflamada pelas idéias equivocadas da filha, resolve tomar providências para acabar com a relação de amizade que vem se solidificando e que não perceptível, aos seus olhos, modificando para melhor, sua relação familiar.

No momento final da peça, Jonas, já resgatando uma repressão comportamental, com a ajuda do novo vizinho, resolve declarar à uma colega de classe, seu amor de infância. Vai a casa dele e busca aprender com aquele homem experiente, como explodir seu sentimento sufocado por medo e vergonha. Dizendo “eu te amo”, induz Sasha. Com força, com veemência, com sentimento.

Lenita, a mãe, não sabe o que significa um crossdresser. Não imagina que alguns homens que assim se vestem, em sua intimidade e até fora dela, podem ser, de fato heterossexuais. Lenita não sabe que homossexualismo não é doença, é identidade genética e isso não está atrelado a uma escolha ou “opção”, como classificam por aí. Ela entende que ser gay, ou homem que se veste de mulher são “tudo a mesma coisa”. Desvios psicológicos ou simplesmente “safadeza”. Lenita também não entende que a verdade de sua família, não está nos almoços com todos juntos à mesa, que ela tenta promover forçadamente a todo tempo. Lenita não percebe, assim como seu marido e seu filho se permitiram perceber, que a verdade de sentimentos pode estar no diálogo. Por esse motivo, mantém um relacionamento virtual. Não sabe que seu “namorado” ou “amante”, pode ser o retrato de tudo aquilo que ela abomina. E impulsionada pela filha, como num equívoco, ouve seu filho, na casa do “travesti”, com força, com veemência, gritando “Eu te amo!”. Confunde-se. Como ela finda essa situação? Ela descobre que aquele, talvez, poderia ser o seu amante virtual e se choca? Ela mata o filho? Ela se mata? Ela mata o homem que ela considera ser amante e desvirtuador de seu marido e seu filho?

Um texto que pelo nome imaginei ser uma paródia da famosa série “A porta dos fundos” (lembram que eu fui sem saber do que se tratava a peça?), surpreendeu-me com o enredo, texto bem amarrado e perfeita atuação do elenco.

E nesse fim, com toda a sua confusão de sentimentos, que Lenita, ao entrar PELA PORTA DA FRENTE da casa do “homem que se veste de mulher”, com uma arma em punho, surpreendentemente dá um ponto final naquela história, como nas tragédias rodrigueanas.

As luzes do teatro se acendem e as do palco se apagam ao mesmo tempo que, como no começo da peça, voltamos a ouvir Lou Reed, nos ensinando que muitas vezes precisamos andar pelo lado selvagem da vida para que as portas da esperança se abram…

Nina Reis e Felipe Haiut se destacam no espetáculo.
Nina Reis e Felipe Haiut se destacam no espetáculo.


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