A magia de Farnese de Andrade

9 de abril de 2014

O lindo espetáculo “Farnese de Saudade” é uma excelente oportunidade para aproximar a vida e obra desse magnífico artista, que infelizmente ainda não é tão familiar entre os brasileiros.

Por Marcos Araújo (texto e fotos)

 

Farnese de Saudade
Foto: Marcos Araújo / Fanz

Conheci Farnese de Andrade algumas semanas antes de sua morte, em 1996. Na época, minha prima, que estudava artes plásticas comentou, em um papo informal, algo sobre ele. Acredito que a conversa inicial tenha sido em torno da cidade de Araguari, no triângulo mineiro, local onde Farnese nasceu e onde minha prima mora até hoje.

Já tinha ido diversas vezes até aquela cidade, principalmente durante as férias, mas nunca tinha escutado falar sobre ele. Na verdade, quase ninguém já ouviu falar sobre ele.

Farnese de Andrade foi um dos mais geniais artistas plásticos que o Brasil já teve. E assim como todo gênio, foi totalmente incompreendido. Mesmo tendo recebido diversos prêmios, inclusive no exterior, Farnese morreu sem ter o reconhecimento merecido se o compararmos com Amilcar de Castro e Lygia Clark, outros artistas contemporâneos que estudaram juntos com o mineiro em Belo Horizonte, tendo como mestre, nada menos do que Guignard.

Farnese era um sujeito muito recluso. Calado, observador ao extremo, tinha um olhar firme, sombrio e ao mesmo tempo, muito triste. Certa vez trocamos algumas palavras e fiquei o observando de longe quando visitei sua casa-ateliê que ficava no Rio Comprido, um bairro próximo ao Centro do Rio de Janeiro.

Aquela visita me deixou simplesmente maravilhado. Parecia que eu estava entrando em um portal que dava acesso a um outro mundo. Aqueles milhares de oratórios e ex-votos pendurados no teto me causaram uma sensação claustrofóbica, mas ao mesmo tempo, fascinante. E, em todo o tempo, Farnese andava de um lado para o outro, mexendo nas peças, retirando objetos, encaixando outros como se montasse uma obra sem fim.

Farnese de Andrade utilizava uma técnica chamada assemblage, que é a junção de vários elementos. No caso dele, eram transformados em objetos mágicos, macabros e incômodos como bonecas incineradas mergulhadas em resina, ossos e fotografias antigas, que tinham uma presença muito forte em fragmentos da memória, como um delírio visual-surrealista e extremamente simbolista, associados a elementos religiosos mesclados com o sexo, a culpa, o medo, a dor e a solidão.

Assim que soube que um espetáculo teatral sobre a vida de Farnese de Andrade seria montada aqui no Rio de Janeiro, fiquei super feliz.

E confesso que fiquei surpreso quando assisti a peça, que na verdade é um espetáculo instalação. O cenário me deixou assombrado. Era como se eu estivesse novamente entrando em seu ateliê e reencontrando a sua obra que tanto me impressionou no passado.

O ator Vandré Silveira encarna com maestria os gestos de Farnese, que, durante todo o espetáculo, monta e desmonta as obras de arte em uma imensa gaiola de ferro em formato de cruz, constatando que o seu trabalho era uma eterna busca de construção e reconstrução, relatando seus conflitos fragmentados em uma mente psicótica, impregnadas de lembranças.

Por dois anos, antes de montar a instalação, o ator Vandré chegou a realizar o mesmo processo criativo de Farnese: garimpou durante esse tempo, objetos esquecidos nas areias das praias de Botafogo e Flamengo, em antiquários e na feirinha da Praça Quinze, locais que fizeram parte da trajetória de Farnese, tornando o resultado final ainda mais surpreendente, carregado de sentimentos e de afeto.

Assistir a “Farnese de saudade” foi uma grata surpresa sobre a reflexão sobre a vida e sobre o amor incondicional. Em uma das declarações do artista plástico, ele chegou a explicar que o uso da resina de poliéster nas suas obras servia para suprimir o tempo. “Onde o ar não entra, não existe a deterioração causada pela ação do tempo. E tudo continua sempre”.

Esse eterno conflito de perder o que amamos vivia dentro de Farnese, assim como existe dentro de todos nós. Por isso, sua obra é tão fascinante, pois mexe com os sentimentos mais profundos. Até que ponto seríamos tão egoístas em desejar mergulhar nossas lembranças, momentos felizes e entes em uma imensa redoma para que fossem congelados e, lado a lado, expostos eternamente?

Existe algo que só se diz pelo silêncio; um silêncio de boca fechada, coração aberto e o universo no olhar”.

O espetáculo, que já realizou duas temporadas de sucesso no Rio de Janeiro e passou o mês de abril em São Paulo, também ganhou o Prêmio Questão de Crítica, na categoria Melhor Cenografia.  Também foi indicado na vigésima quinta edição do prêmio Shell, pelo cenário.

Fiquem de olho: nas próximas edições do Fanz, mostraremos um pouco da fascinante história de Farnese de Andrade e algumas de suas obras.

Farnese de Saudade
Foto: Marcos Araújo / Fanz


Deixar uma Resposta